Queres começar a escrever, mas basta abrir o caderno para a mente ficar vazia. Não sabes o que dizer, por onde começar ou se existe uma forma certa de fazer journaling.
Este guia de journaling para iniciantes nasceu para te ajudar a começar, mesmo quando não sabes o que escrever.
A verdade é que não precisas de ter pensamentos profundos nem palavras bonitas. Escrever pode começar com uma frase simples, uma pergunta ou aquilo que estás a sentir neste exato momento. A página não espera perfeição. Só precisa que apareças como estás.
O que é journaling?
Journaling é a prática de escrever para te ouvires com mais clareza. Podes registar pensamentos, emoções, perguntas, acontecimentos ou simplesmente aquilo que está a ocupar espaço dentro de ti.
Não é preciso contar o dia inteiro nem transformar cada página numa grande reflexão. Algumas vezes vais escrever muito. Noutras, uma única frase será suficiente. O mais importante não é a quantidade, mas a honestidade com que te encontras na página.

Escrever à mão num mundo digital
Escrever acompanha a humanidade há milhares de anos. Num mundo onde quase tudo acontece através de um ecrã, pegar numa caneta e escrever continua a ser um dos poucos gestos antigos que ainda fazem parte do nosso quotidiano.
Hoje escrevemos mensagens, listas e pensamentos no telemóvel ou no computador. É rápido, prático e faz parte da vida. Mas escrever à mão cria uma experiência diferente. Obriga-nos a abrandar, a formar cada palavra e a permanecer um pouco mais tempo com aquilo que estamos a pensar.
Um estudo publicado em 2024 analisou a atividade cerebral de 36 estudantes enquanto escreviam palavras à mão e enquanto as digitavam. Os investigadores observaram padrões de conectividade cerebral muito mais elaborados durante a escrita manual. Segundo os autores, os movimentos precisos da mão e a informação visual e sensorial envolvida neste processo podem criar condições favoráveis à aprendizagem e à formação de memórias.
É por isso que, quando estou a estudar, prefiro escrever à mão. Sinto que consigo memorizar muito melhor. Aquilo que escrevo fica comigo de uma forma que nem sempre acontece quando apenas leio ou digito.
Isto não significa que digitar seja prejudicial ou que escrever à mão resolva tudo. Mostra apenas que as duas experiências não são iguais. Quando escrevemos à mão, o corpo também participa no pensamento.
E existe ainda outra dimensão que nenhuma tecnologia substitui por completo. Ao colocarmos os pensamentos no papel, conseguimos vê-los. Reconhecemos padrões, contradições, medos e desejos que permaneciam misturados dentro de nós. A escrita transforma aquilo que sentimos em algo que podemos observar. Por isso, escrever também pode ser uma forma de nos conhecermos.
Porque é tão difícil começar a fazer journaling?
Começar pode ser difícil porque olhamos para a página como se ela fosse um teste. Achamos que precisamos de escrever algo profundo, encontrar as palavras certas ou compreender completamente aquilo que sentimos antes de começar.
Outras vezes, o problema não é a falta de pensamentos. É o excesso. Há tanta coisa a acontecer dentro de nós que não sabemos qual fio puxar primeiro. E também existem sentimentos que evitamos tocar, porque sabemos que, quando escrevemos, aquilo que tentávamos ignorar pode tornar-se mais visível.
Passamos grande parte do dia a receber estímulos, informações e opiniões. Estamos habituadas a consumir as palavras dos outros, mas nem sempre paramos para escutar as nossas. O journaling pede essa pausa, e fazer silêncio diante de nós mesmas pode ser desconfortável.
Não precisas de compreender tudo antes de escrever. Muitas vezes, é enquanto escreves que começas finalmente a perceber o que se passa dentro de ti.
Como começar a fazer journaling quando não sabes o que escrever
Não precisas de esperar pela inspiração nem de preparar um ritual perfeito. Ainda assim, cria um ambiente confortável para ti. Podes acender uma vela, colocar uma música de fundo, preparar uma bebida quente ou escolher o silêncio. O importante não é criar o cenário mais bonito, mas sim um espaço onde te sintas tranquila e livre para escrever sem te julgares.
Começa pelo que está presente
Em vez de procurares um tema importante, escreve sobre aquilo que está presente agora. O teu corpo, o teu humor, um pensamento que não te larga ou alguma coisa que aconteceu durante o dia.
Podes começar com uma frase tão simples como: “Neste momento, sinto…” ou “Aquilo que mais ocupa a minha mente hoje é…”. Não tentes corrigir a resposta. Deixa que uma frase conduza à seguinte.
Deixa que uma pergunta abra o caminho
Quando a página em branco te bloqueia, uma pergunta pode dar direção à escrita. Não precisas de procurar imediatamente uma resposta profunda. Escreve aquilo que surgir primeiro e deixa que a resposta te conduza.
Podes começar com uma destas perguntas:
• O que estou a sentir e ainda não consegui dizer?
• O que mais preciso neste momento?
• O que tenho evitado ouvir dentro de mim?
• O que estou pronta para deixar de carregar?
Escolhe apenas uma. Escreve sem tentar organizar tudo e sem te preocupares com a forma como as palavras ficam no papel.

Começa com cinco minutos
Não precisas de escrever várias páginas nem de reservar uma hora do teu dia. Define cinco minutos e escreve durante esse tempo.
Se ficares sem saber o que dizer, escreve exatamente isso: “Não sei o que escrever.” Podes repetir a frase até surgir outro pensamento. Muitas vezes, as primeiras palavras servem apenas para atravessar a resistência.
Quando os cinco minutos terminarem, tens liberdade para parar. Se quiseres continuar, continua. O objetivo é tornar o início leve o suficiente para que não continues a adiá-lo.
Escreve como se ninguém fosse ler
O teu diário não é conteúdo para publicar nem um texto para ser avaliado. Não precisa de estar bonito, organizado ou gramaticalmente perfeito.
Evita interromper cada frase para corrigir palavras ou procurar uma forma melhor de dizer aquilo que sentes. Permite-te escrever pensamentos confusos, contraditórios e até coisas que ainda não compreendes.
A página pode ser um dos poucos lugares onde não precisas de representar nenhuma versão de ti. O valor da escrita não está na beleza das palavras, mas na verdade que consegues colocar nelas.
Cria um ritmo, não uma obrigação
Não precisas de escrever todos os dias para que o journaling tenha valor. Podes escrever de manhã, antes de dormir, uma vez por semana ou sempre que sentires necessidade de organizar o que se passa dentro de ti.
Ter um horário pode ajudar, mas não transformes a escrita em mais uma tarefa usada para te julgares. Se passares alguns dias ou semanas sem escrever, não precisas de recomeçar do zero nem de preencher as páginas que ficaram vazias. Abre o caderno onde estás e continua a partir daí.
A consistência nasce mais facilmente quando a escrita passa a ser um lugar ao qual queres regressar, e não uma obrigação que tens de cumprir.
10 perguntas de journaling para começares hoje
Não precisas de responder a todas. Escolhe a pergunta que mais te chamar neste momento e começa por aí.
- Como me sinto verdadeiramente hoje?
- O que tem ocupado mais espaço na minha mente?
- De que preciso neste momento, mas ainda não me permiti pedir?
- O que tenho evitado enfrentar ou admitir?
- O que estou a carregar que já não me faz bem?
- O que me tem dado energia ultimamente?
- O que me tem deixado mais cansada ou distante de mim?
- Que verdade preciso de dizer a mim mesma?
- Que parte de mim precisa de mais atenção neste momento?
- Qual é o gesto mais pequeno que posso fazer hoje por mim?
A escrita como um caminho de volta a ti

Escrever não vai oferecer sempre uma resposta imediata. Algumas páginas vão trazer clareza. Outras ficarão confusas, incompletas ou cheias de perguntas. Todas fazem parte do processo.
Começar a fazer journaling não exige que saibas exatamente onde queres chegar. Precisas apenas de criar espaço para te ouvires. Uma frase honesta pode ser o início de uma conversa contigo mesma que já estavas a adiar há muito tempo.
Foi também desse desejo de regressar a mim através da cor e da escrita que nasceu o livro Deusas em Mim. Metade livro de colorir e metade journaling, reúne 32 ilustrações e 34 perguntas profundas criadas para acompanhar cada mulher no seu próprio encontro interior.
Se sentes que a página em branco ainda te intimida, podes começar com uma pergunta, uma cor e alguns minutos só teus.



